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sexta-feira, 29 de maio de 2026

O teatro da classificação: o gesto, o discurso e o vazio de 4 anos

O teatro da classificação: o gesto, o discurso e o vazio de 4 anos


Por Fabio Jabá — Presidente do SINPPENAL


O governador Tarcísio de Freitas publicou uma declaração enfática em suas redes sociais: "PCC e CV não são facções: são terroristas armados contra o povo brasileiro e com atuação além das nossas fronteiras. Quem domina territórios, impõe toque de recolher, mata inocentes e desafia o Estado pratica terror." A frase, de tom duro e combativo, foi acompanhada de parabéns ao senador Flávio Bolsonaro pela "articulação firme e necessária". O gesto internacional — a classificação das facções como organizações terroristas pelo governo Trump — foi saudado como "oportunidade" pelo Palácio dos Bandeirantes.



O problema é que, após quatro anos de mandato — com maioria folgada na Alesp, orçamento bilionário e poder de iniciativa —, o governo de São Paulo não apresentou nenhum plano estruturado para desarticular o PCC dentro do sistema prisional onde a facção nasceu, se fortaleceu e de onde continua operando. A pergunta que a postagem não responde é simples: se o governador realmente acredita no que escreveu, por que em quatro anos não fez o básico?


**A dança do discurso**


A distância entre o discurso e a ação é a marca registrada dessa gestão no campo da segurança pública. Em setembro de 2025, diante da crise do metanol adulterado que deixou dezenas de vítimas, Tarcísio foi categórico: "não há evidências de participação do PCC, nem tudo é PCC." Em dezembro do mesmo ano, durante o balanço de governo, afirmou que a facção "não controla mais os presídios" — declaração que o SINPPENAL classificou como "realidade paralela". Agora, em maio de 2026, o tom é outro: o PCC é "terrorista" e merece tratamento implacável. A mesma organização que antes "não tinha evidências" de envolvimento com o metanol agora é descrita como força terrorista transnacional.


Em cada ocasião, o discurso se adapta ao palanque. O que não muda é a ausência de ações estruturais consistentes.


**Os números que a postagem não mostra**


Enquanto o governador discursa, os dados do sistema prisional paulista contam uma história muito diferente:


- População carcerária: 228.122 detentos

- Policiais penais ativos: 23.282

- Proporção real: 1 policial para cada 16 presos

- Recomendação do CNPCP: 1 para cada 5 presos

- Déficit de efetivo: 38%

- Cargos congelados: 5.220

- Cargos extintos na prática: mais de 12 mil

- Queda do efetivo na gestão: de 26.053 para 24.726

- Policiais perdidos só em 2026: 261 em 3 meses

- DEJEPs mensais: 26.700 — mais que o efetivo ativo


O secretário Marcello Streifinger confirmou na Alesp: não haverá reposição de efetivo em 2026. Novos concursados, se vierem, chegarão apenas em 2028. O governo anunciou reajuste de 10% e bônus para as polícias Militar, Civil e Técnico-Científica, mas excluiu deliberadamente a Polícia Penal — uma decisão política, como reconheceram deputados da base governista na própria Alesp. Tarcísio também não aderiu ao programa Brasil Contra o Crime Organizado, do governo federal, que disponibiliza verbas para reforço da segurança nas unidades prisionais.


O sistema se sustenta precariamente com 26.700 Diárias Especiais por Jornada Extraordinária (DEJEPs) por mês — número superior ao próprio efetivo ativo. É o esgotamento físico e mental dos policiais penais subsidiando a "eficiência orçamentária" tantas vezes celebrada pelo Palácio dos Bandeirantes. Os suicídios entre policiais penais, que já superam em 2026 os números do ano anterior, são a face mais trágica dessa equação. Cada policial morto pela exaustão é uma vida que o sistema deixou para trás.


**O alerta dos especialistas — ignorado**


O promotor Lincoln Gakiya, um dos maiores inimigos do PCC no Brasil, que vive sob ameaça constante justamente por investigar a facção, já alertou: classificar as facções como terroristas pode, na prática, prejudicar o combate a elas. Com a mudança, a cooperação entre os órgãos brasileiros, o FBI e a DEA é encerrada, e as investigações passam para a alçada da CIA. E como demonstram as experiências internacionais — incluindo o Comitê Kerry do Senado Americano (1989), que documentou pagamentos da CIA a traficantes conhecidos e a ocultação de suas atividades —, a agência não compartilha informações com agências nacionais e possui largo histórico de conivência com o narcotráfico.


Gakiya e outros especialistas são claros: longe dos discursos inflamados, das declarações bombásticas e dos vernizes ideológicos, o combate ao crime organizado exige um trabalho persistente, tenaz e, por vezes, silencioso. Não existem soluções mágicas ou balas de prata. Mas os especialistas são ignorados. O que importa é o gesto.


**Os aliados que atuam na contramão**


Os defensores da medida têm um histórico no mínimo contraditório:


O deputado Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança de Tarcísio e um dos principais aliados do governador, como relator do PL Antifacção, alterou o texto para dificultar o confisco de bens dos líderes das facções e tentou reduzir o poder de investigação da Polícia Federal. Na Câmara, foi ele quem retirou do texto a classificação das facções como terroristas.


O senador Flávio Bolsonaro, que foi pessoalmente a Donald Trump pedir a classificação, não a defendeu durante a votação no Senado — o PL Antifacção foi aprovado sem a equiparação a terrorismo, e ele não moveu uma palha para incluí-la.


Tarcísio de Freitas não repõe efetivo, não valoriza a Polícia Penal, não adere a programas federais de enfrentamento ao crime e exclui os policiais penais do reajuste concedido às demais forças de segurança.


A pergunta que fica é: quando os defensores da classificação ignoram a avaliação de quem realmente enfrenta o crime organizado — como Gakiya, que mesmo sob ameaça à vida segue investigando — será que querem mesmo combater as facções, ou estão mais interessados em um discurso vazio que ecoe bem entre suas bases eleitorais?


**Cadê o plano?**


Não se enfrenta uma organização que nasceu nos presídios paulistas na década de 1990, cresceu com a superlotação e o abandono estatal, e hoje movimenta bilhões — como demonstrou a Operação Carbono Oculto, com R$ 7,6 bilhões em sonegação de impostos — com postagens de rede social ou carimbos estrangeiros.


O SINPPENAL tem dito e repete: classificar o PCC como terrorista diante desse quadro não é enfrentamento. É tentar resolver com um selo internacional um problema que exige recomposição de efetivo, valorização profissional e presença real do Estado dentro dos presídios. Enquanto um policial penal precisar dar conta de três pavilhões com 300 presos cada, enquanto a mediação entre agente e detento for feita por faccionados, enquanto não houver concurso, reajuste e plano de carreira, não há classificação que resolva.


O gesto é internacional. A inação é doméstica. E o sistema prisional paulista — com 228 mil presos, 38% de déficit de agentes e um policial esgotado para cada 16 detentos — continua pagando a conta.


Quatro anos depois, a pergunta continua sem resposta:


Se o governador realmente acredita que PCC e CV são "terroristas armados contra o povo brasileiro", cadê o plano? Cadê o efetivo? Cadê a valorização de quem está na linha de frente desse combate?


Enquanto a resposta não vier, o discurso continuará sendo exatamente o que é: um teatro. E os policiais penais de São Paulo — que estão nos presídios todos os dias, sem respaldo, sem reconhecimento e sem estrutura — continuarão sendo os únicos a pagar o preço real dessa encenação.

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