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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Vale a pena assistir :Documentário Sem Pena

 Vale a pena assistir :Documentário Sem Pena


A sinopse de Sem Pena informa que este documentário aborda a questão do sistema carcerário brasileiro, com seus preconceitos, limitações e desafios. A descrição é pertinente ao conteúdo do filme, mas talvez o costume à abordagem telejornalística prepare o espectador para uma experiência muito diferente daquela proposta pelo diretor Eugênio Puppo. Ao invés de se deleitar com números, problemas de gestão e denúncias de superlotação nas prisões, o diretor dá um passo atrás e faz perguntas essenciais sobre a própria função da cadeia e a noção de justiça.

Sem Pena - FotoA maior surpresa diante desta obra é o fato de não mostrar as pessoas que prestam depoimentos ao filme. Não que elas apareçam com algum tipo de distorção da imagem sobre o rosto, para proteger sua identidade. Enquanto os entrevistados (detentos, juízes, filósofos) falam sobre a sua visão da prisão e suas experiências com o tema, o diretor busca analogias mais ou menos diretas à questão, como a fachada de prédios públicos, estátuas com símbolos de liberdade, tribunais etc. Desfilam pela tela dezenas de imagens de corredores de prisões, mas Sem Pena opta por tornar o debate intelectual, cerebral. A intenção nunca é comover o espectador através das histórias de abusos e injustiças, e sim fazê-lo pensar, ativamente.


Ao retirar do público a possibilidade de identificação com estas pessoas (afinal, elas não têm rosto ou corpo), cria-se um distanciamento curioso dentro do gênero. A crença do documentário como apreensão direta da realidade cai por terra, assim como a relação pedagógica entre som e imagem, já que as narrações sonoras não sublinham ou duplicam a imagem. O que existe neste filme é uma construção reflexiva do tema, como um debate de ideias que, enquanto tal, precisa sair do plano concreto e se livrar de amarras referenciais. Sem rostos, nomes ou datas, os depoimentos deixam de ser histórias puramente pessoais em contextos específicos, tornando-se casos universais, aplicados a qualquer um. A cadeia, em Sem Pena, é um problema social, uma questão que toca a todos os cidadãos.

Sem Pena - FotoA ausência de imagem dos depoentes torna a obra mais áspera e também menos comercial – as perspectivas de bilheteria deste belo filme não são nada promissoras. Mesmo assim, Eugênio Puppo opta por uma abordagem radical que se justifica plenamente diante do resultado obtido. Os depoimentos coletados são excelentes, não apenas pelo valor de denúncia, mas pela profundidade do discurso. Todas as pessoas entrevistadas, desde juízes a detentos, possuem uma reflexão complexa sobre o assunto, marcada pelo distanciamento de quem convive com o tema há muitos anos. Não há lágrimas ou súplicas neste filme, apenas uma série de constatações amargas a respeito do preconceito contra os mais pobres, a corrupção de policiais e juízes, a impossibilidade de reinserção social dos presos e os maus-tratos estendidos à família dos detentos.

O debate vem a calhar na época em que os governadores e prefeitos das maiores cidades do país defendem a redução da maioridade penal e a intensificação das penas como solução para a segurança pública. Ora, o filme apresenta o fato de que o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, e a primeira em termos de crescimento anual. Sem Pena apresenta o sistema carcerário brasileiro como uma instituição totalmente falida, não por falta de investimentos, mas por pertencer a uma estrutura que visa, acima de tudo, proteger os bens dos cidadãos em liberdade contra aqueles mantidos em isolamento.



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