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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Crônica - Cultura da Execução


Uma pergunta comum feita numa escola qualquer por uma professora indignada por saber com quem estava lidando – carros riscados, pneus furados, sempre algum tipo de represália quando contrariava o aluno. Mas ela indagou:
 “O que você vai ser quando crescer?” para uma criança assustadoramente comum naquele dia a dia escolar de crianças assustadoras, polícia no pátio, carteiras destruídas, motim de alunos. O menino com seus 12 anos cheios de vida, nike nos pés, brilhante na orelha, vontade de soltar pipa. A resposta, cada vez mais comum dentro do colégio onde os filhos do tráfico sentam em suas cadeiras marcadas, caminham pelos corredores com gingado de MC´s e debocham da “vadia” que está na frente deles todos os dias lhes dizendo “o quê mesmo?”:
“Eu quero ser traficante!” – Resposta com olhar dominador, cheio de certezas de que a vida no tráfico lhe trará coisa melhor, comida no prato, o tênis da moda, o carro do ano, as garotas que desejar. O dinheiro compra tudo.
Esse garoto sabe atirar, já matou um, e, tia “quem vai chorar é a mãe dele ou a minha, prefiro que seja a dele”. Seu trabalho ainda é pequeno na favela, hoje chamada de Comunidade como se a nomenclatura trouxesse dignidade a uma gente que sente-se mais protegida pelo tráfico do que pela polícia.
“Na minha casa ninguém entra e nada falta, aqui é tranquilo, menos quando a polícia sobe ”-frase do morador do morro.
E a função do menino era avisar que a polícia está subindo o morro, e assim ele sobe de posto, nesta indústria crime com plano de carreira. Agora ele passa a droga e sabe de cor o que dizer de olhos baixos numa batida policial.
__Não sei de nada não, senhor. Nunca foi pego e sabe que se for para a Fundação Casa ainda não saberá de nada. Punição. E punição é morte.
__Polícia! A casa caiu! De quem é essa droga?
__Não sei de nada não senhor.
E o filho da coragem da execução, prossegue para a Fundação Casa. Não demora a liderar o motim. Ele não se importa. “A vida é curta pra ‘nóis’ então vamos viver do melhor, ‘falô’?”. Juntam-se os filhos das facções que crescem e se não são executados pela própria organização a qual pertencem, executaram quem lhes deve ou quem tenta pará-los.
E se vão parar no Sistema Prisional, continuam a organização sempre arrebentando a corda do lado mais fraco. Sangue nas mãos, nos olhos e no coração. Querem sempre mais, não importa o quê. Queimam os colchões, serram grades, arranjam armas e aterrorizam aqueles a quem o Estado propôs que cuidassem da prisão, os Agentes de Segurança Penitenciária, que tornam-se reféns, sem chance de defesa, sem o treinamento de guerra da facção, sem a loucura e sem a cultura da execução, perdem as cabeças, exibidas em longos espetos para mostrar quem tem poder. O sorriso maroto continua no rosto do garoto que cheira da morte e impõe respeito.
E foi a mãe do outro quem chorou, a esposa e os filhos, sepultando um corpo decapitado de um homem executado enquanto exercia sua função no trabalho, trabalho sem plano de carreira. E qualquer jornal sensacionalista mostrará a foto da cabeça espetada numa vara segurada por um menino que sorri pra morte e que sabe que seu fim não será tão diferente.
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A crônica possui personagens verdadeiros, as falas inseridas como ditas pela criança, aliás, uma criança que representa a persona de um a geração, também foram ouvidas por uma professora real. Não é necessário dizer que motins na Fundação Casa ou nos Presídios brasileiros são reais, e que a morte de Agentes de Segurança Penitenciários são mais do que verdadeiras. O sangue está sendo derramado e não há nada que seja suficiente para limpá-lo e escondê-lo embaixo do tapete já encharcado. A decapitação foi real, e não apenas uma vez, como outras tantas formas cruéis de tortura e de se acabar com uma vida. A questão já não é “quem tem esse direito”, mas a tamanha falta de humanidade vinda de uma formação de caráter corrompida e quase desalmada, caráteres que quando unidos em facções formam quase que um delírio coletivo da verdade quase absoluta de que o poder é deles e que o direito de matar também, e que isto não tem a menor importância, é mais um.
O choro de mães, esposas, a outra geração de órfãos de trabalhadores da segurança pública também é gritante. O medo de trabalhadores que adentram a um sistema formado e viciado em atos falhos há tantos anos, quase que uma criatura viva contra quem precisam lutar quando deveriam dele receber ajuda, o Estado. A promessa de salário e estabilidade financeira após um concurso muito concorrido, por sinal, vale? Para uns vale o pão, para outros a ideologia de um país melhor prevalece a frente de suas famílias.
Quem mais necessitará gritar para ser ouvido. O medo é silencioso, mas neste caso até ele grita. Talvez, quando algum filho de deputado cair na corrente sanguínea do crime e morrer por ele, algo seja feito. A esperança grita. Quem mais precisará morrer para que trabalhadores sejam ouvidos e atendidos em pedidos simples de necessidades básicas?

GRITA BRASIL DE UM CHORO INTENSO E UM RAIO VÍVIDO DE ESPERANÇA QUE NUNCA MORRE.

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