A CRÔNICA DO ESQUECIMENTO: COMO A POLÍCIA PENAL É EXCLUÍDA DO SALÁRIO E DOS HOLOFOTES
"20 anos produzindo as provas que o crime organizado não consegue destruir — e sendo esquecida nas coletivas, nos discursos e no contracheque"
**Por Fábio Jabá**
*Policial Penal há 25 anos, presidente do Sindicato dos Policiais Penais do Estado de São Paulo*
Maio de 2026. Vinte anos depois dos ataques que pararam São Paulo, a Operação Vérnix prende uma influenciadora famosa e bloqueia R$ 327 milhões. A coletiva de imprensa é montada: microfones posicionados, câmeras ligadas, repórteres a postos. O Ministério Público explica a engenharia financeira. A Polícia Civil detalha a execução das buscas.
Mas ninguém faz a pergunta crucial: quem encontrou a primeira prova?
A resposta não estava nos escritórios climatizados. Foi a Polícia Penal, revirando o esgoto da Penitenciária II de Presidente Venceslau, ainda em 2019. Sete anos atrás.
Isso não é uma exceção; é o padrão. Há duas décadas, a Polícia Penal produz a inteligência bruta que alimenta as maiores operações contra as facções criminosas no Brasil. E há duas décadas, a categoria recebe o mesmo tratamento em troca: o esquecimento no salário e a invisibilidade nos holofotes.
Esta é a crônica do abandono.
SEÇÃO 1 — A LINHA DO TEMPO DO ESGOTO: 20 ANOS DE PROVAS, 20 ANOS DE INVISIBILIDADE

Maio de 2006 — O Marco Zero: No dia 11 de maio de 2006, o governo do Estado transferiu 765 presos da principal facção paulista — incluindo sua liderança máxima — para a P2 de Presidente Venceslau. No dia seguinte, véspera do Dia das Mães, a organização desencadeou os maiores ataques coordenados da história de São Paulo. Foram 59 agentes públicos mortos, 67 presídios em rebelião simultânea e uma capital sitiada. Nas duas décadas seguintes, o comando continuou ecoando de dentro das celas. E a Polícia Penal seguiu como a primeira e mais exposta barreira de defesa — e a única sem o devido reconhecimento.
2016 — Operação Ethos: Policiais penais interceptaram documentos na P2 que revelavam um plano audacioso: infiltrar o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe). A facção pagava uma mesada de R$ 5 mil ao vice-presidente do conselho para difamar as forças de segurança, usando advogados como pombos-correios. O resultado: 32 advogados e o vice-presidente do Condepe foram presos. A Polícia Penal achou a prova. Na coletiva de imprensa, não fomos chamados.
2018 — Operação Echelon: A engenharia da inteligência penitenciária instalou telas nos dutos de esgoto da P2 para "pescar" os bilhetes que os presos tentavam destruir dando descarga. Esses papéis mapearam a estrutura da facção em 14 estados e no exterior. O resultado: 63 presos e uma denúncia de 569 páginas assinada pelo promotor Lincoln Gakiya, que isolou a cúpula em presídios federais. A Polícia Penal viabilizou a inteligência. Na coletiva de imprensa, não fomos chamados.
2021 — Operação Lado a Lado: Em 2019, durante uma vistoria de rotina, policiais penais encontraram novos manuscritos no esgoto da P2. Eles mencionavam uma "mulher da transportadora" e ordens para um atentado contra um ex-diretor da unidade. A Polícia Civil descobriu que a tal transportadora ao lado do presídio lavava dinheiro do crime. Aqueles bilhetes, descobertos por nós, sustentaram o inquérito em silêncio. A Polícia Penal achou a prova. Na coletiva de imprensa, não fomos chamados.

2023 — Operação Sequaz: A Polícia Federal desarticulou um plano para sequestrar e assassinar o senador Sergio Moro, o promotor Lincoln Gakiya e policiais penais. A base de informações que acendeu o alerta e alimentou as investigações saiu diretamente das galerias da P2 de Presidente Venceslau. A Polícia Penal produziu a inteligência de base. Na coletiva da PF, não fomos chamados. O senador agradeceu publicamente às forças de segurança; nós ficamos de fora do discurso.
*
2024 — A Linha de Fogo Real: Os dois acusados de planejar o atentado contra as autoridades foram executados a facadas dentro da própria P2, em uma queima de arquivo determinada pelo tribunal do crime. Quem controlou o motim, conteve os danos e enfrentou o clima de guerra na linha de frente dentro do pavilhão? A Polícia Penal.

Maio de 2026 — Operação Vérnix: A operação que hoje choca o país com apreensões de carros de luxo e bloqueios milionários nasceu daqueles mesmos bilhetes tirados do esgoto em 2019. A engrenagem de lavagem de dinheiro começou a ruir pela mão de um policial penal com uma lanterna e uma grade de contenção de detritos. Sete anos de trabalho invisível. E na foto oficial do estouro da operação, a Polícia Penal novamente não apareceu.

SEÇÃO 2 — A CRONOLOGIA DO ESQUECIMENTO SALARIAL
Se a exclusão dos palanques fere o orgulho profissional, o tratamento dado ao bolso do policial penal atenta contra a dignidade da sua família. A invisibilidade institucional se reflete diretamente na conta bancária.
2023 — O Primeiro Sinal: O governo estadual anunciou um reajuste de até 20% para as Polícias Civil e Militar. Para a Polícia Penal, o teto foi de apenas 6%. A mensagem política foi dada: não somos considerados prioridade na segurança pública.
2024 — A Regulamentação da Retirada: Em setembro, celebramos a aprovação da Lei Complementar nº 1.416/2024, a tão sonhada Lei Orgânica da Polícia Penal. Mas a prática revelou o confisco: a lei extinguiu direitos históricos como a sexta parte, o quinquênio e a Ajuda de Custo (AJ). O que foi anunciado como modernização virou desmonte financeiro.
2025 — O Impacto Real: A lei entrou em vigor e o contracheque sentiu o golpe. Direitos consolidados foram sepultados em nome de um subsídio que rebaixou o poder de compra da categoria.
Março e Abril de 2026 — A Exclusão Deliberada: O governo enviou à Assembleia Legislativa o Projeto de Lei 226/2026, propondo um novo reajuste de 10% para as forças de segurança. PM e Polícia Civil foram contempladas. A Polícia Penal foi deixada de fora. O deputado Carlos Giannazi apresentou uma emenda para corrigir essa injustiça e incluir a categoria, mas a base do governo rejeitou. O PL foi aprovado sem nós.
No dia 8 de abril de 2026, em oitiva na ALESP, o Secretário da Administração Penitenciária, Marcello Streifinger, tentou justificar o injustificável: *"Os policiais penais não tiveram reajuste por limitação orçamentária"*. Uma limitação seletiva, que só enxerga a nossa categoria, enquanto para as demais polícias o orçamento se mostra flexível.
SEÇÃO 3 — A BALANÇA DO GOVERNO: O QUE VEIO VS. O QUE NÃO VEIO
Para entender a exata dimensão do abandono estrutural, basta olhar o saldo das promessas de gestão dos últimos anos:
| O Que Veio (Com Restrições) | O Que NÃO Veio |
|---|---|
| **GIR e CIR:** Implantados, mas com reduções de diárias e restrições impostas pela secretaria. | **Reajuste Digno:** Negado e vetado nos projetos de lei de 2023 e 2026. |
| **Canis Operacionais:** Criados, mas operando sem a estrutura ideal. | **Direitos Retirados:** Nenhuma reposição para a perda da sexta parte, quinquênio e AJ. |
| **Concurso Público:** Edital de outubro/2025 para 1.100 vagas, com salário inicial defasado de R$ 4.695,60. | **Reconhecimento de Fato:** Inclusão zero nos discursos, nas fotos e no topo da segurança pública. |
SEÇÃO 4 — A EXCEÇÃO QUE CONFIRMA A REGRA
No meio desse deserto de reconhecimento, o promotor de Justiça Dr. Lincoln Gakiya, do GAECO de Presidente Prudente, surge como uma rara voz de honestidade intelectual. Em suas manifestações públicas, ele faz questão de lembrar que a Polícia Penal é uma das suas principais e mais vitais parceiras na asfixia do crime organizado.
Gakiya não faz isso por política ou palanque. Ele vive sob escolta armada há mais de 20 anos e tem sua cabeça encomendada pelas facções. Foi ele quem assinou o pedido de transferência das lideranças em 2018. Ele sabe, por experiência de trincheira, que sem os bilhetes pescados e as vistorias minuciosas feitas pelos policiais penais, as 569 páginas de suas denúncias seriam folhas em branco.
O reconhecimento de quem está na linha de tiro vale mais do que qualquer promessa de campanha. Mas uma única exceção não pode esconder a regra: o sistema político continua nos tratando como fantasmas que guardam as chaves do estado.
SEÇÃO 5 — O MÉRITO É DA NATUREZA DA FUNÇÃO, NÃO DO GOVERNO
Mudaram a nossa farda, alteraram o nosso nome de "agente penitenciário" para "policial penal" e nos inseriram no artigo 144 da Constituição Federal através da PEC 372/2017. Mas a verdade é que nenhuma dessas mudanças estruturais foi um presente de governo. O mérito da nossa sobrevivência e da nossa relevância é da regularidade, do suor e do sangue de quem está no chão de fábrica do sistema prisional.
O governo se recusa a admitir a nossa importância porque, se o fizer, terá que confessar que a estabilidade da segurança pública de São Paulo depende diretamente de homens e mulheres que trabalham sem estrutura, com salários defasados e direitos subtraídos.
Segurança real não se faz com coletiva cenográfica ou PowerPoint bem editado. Faz-se no silêncio da galeria, na firmeza do tranca-rua e no enfrentamento diário com o crime, olhando nos olhos do perigo.
SEÇÃO 6 — A COMPROVAÇÃO EM VÍDEO: A HESITAÇÃO E O APAGAMENTO NAS COLETIVAS DA VÉRNIX
Se as palavras que escrevo parecem duras, as imagens oficiais das coletivas da Operação Vérnix servem como a prova material e incontestável do apagamento que denunciamos.
No primeiro registro, ao detalhar o início das investigações da operação, vemos o governador Tarcísio de Freitas gaguejar institucionalmente. A expressão "Polícia Civil" sai de forma natural, fluida. Mas, quando chega o momento de citar a nossa categoria, há uma hesitação clara, uma pausa nítida no ritmo da fala. Fica evidente para quem assiste que a menção à Polícia Penal foi puxada da memória no último segundo, quase como um adendo protocolar para "cumprir tabela" no discurso.
No segundo registro, o cenário consegue ser ainda pior. Durante a coletiva oficial capitaneada pela cúpula da segurança pública e pelo Dr. Nico (SSP), o esquecimento deixa de ser uma hesitação e se torna um apagamento absoluto. Eles dissecam a engenharia financeira, citam o DEINTER 8, parabenizam delegados e exaltam o Ministério Público. No entanto, a força policial que, de fato, meteu a mão na massa no esgoto da P2 lá em 2019 para colher a inteligência bruta que viabilizou todo esse show midiático é sumariamente ignorada. Zero menções. Fomos blindados para fora dos créditos em praça pública.
Esse comportamento escancara a hipocrisia da gestão: na hora de cobrar o risco, somos linha de frente; na hora de dividir os louros do sucesso e conceder reajustes salariais justos, somos invisíveis.
SEÇÃO 7 — É HORA DE ABRIR A CAIXA-PRETA
O ciclo de exploração do nosso trabalho precisa acabar. Não aceitaremos mais a engrenagem que funciona assim:
1. O Policial Penal encontra a prova material no coração do presídio;
2. O GAECO e as demais polícias assumem os holofotes da inteligência;
3. A operação é deflagrada com festejos na grande mídia;
4. O Policial Penal volta para o plantão seguinte, sem crédito, sem reajuste e lidando com a ala tensionada pela operação.
Nossas Propostas Concretas:
1. Inclusão Institucional: Participação obrigatória de representantes da Polícia Penal nas coletivas de imprensa de operações originadas no sistema prisional.
2. Reparação Salarial Imediata: Inclusão imediata da categoria em qualquer política de reajuste das forças de segurança, com revisão das perdas da LC 1.416/2024.
3. Voz para a Inteligência: Criação de canais oficiais de comunicação para a divulgação das ações e apreensões da Polícia Penal.
4. Valorização de Carreira: Atratividade salarial real frente aos riscos da profissão, e não salários iniciais que beiram o piso de funções de menor risco.
Se um promotor jurado de morte pelo crime organizado tem a coragem de vir a público reconhecer a Polícia Penal, por que o governo do Estado se esconde atrás de gaguejadas e desculpas orçamentárias seletivas?
Não estamos pedindo favores. Estamos exigindo o que é nosso por direito: o salário justo e o lugar na história que nós mesmos escrevemos com a nossa coragem.
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